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Reconhecimento de paternidade: o amor pode tardar, mas nunca falhar

Elis Lorraynne* - 07/08/2018

Nasci numa pequena cidade do Sul do Tocantins chamada Alvorada, localizada a 323 Km de Palmas. Sou fruto de um breve relacionamento que minha mãe teve à época. Meu pai não morava na cidade. Com um desentendimento entre eles, minha mãe sofreu muito na gravidez e acabou por omitir da família e também de mim, a identidade de meu pai. Cresci acreditando que meu pai era um homem que abandonou a minha mãe grávida e se mudou pra Goiânia (GO). Eu nunca o havia visto e, falar nele, era um tabu na minha família.

Ao completar meus 17 anos, minha mãe me revelou, aos prantos, a verdade: meu pai morava a 180 km de distância de mim, no município de Gurupi. A única coisa que ela sabia era seu primeiro nome. Reuni as informações necessárias e alguns anos depois tomei coragem para conhecê-lo. Com a ajuda de amigos em Gurupi, me aproveitei do fato dele ser corretor de imóveis e o contatei alegando que queria comprar uma casa na cidade.

Naquela época, o sentimento de dúvidas e medo da rejeição tomou conta e a falta de apoio por parte de alguns familiares me fez questionar se deveria ir atrás da verdade. Passaram-se quase 10 anos depois, até que colegas da Defensoria Pública (DPE-TO) me encorajaram e me ajudaram a procurá-lo mais uma vez e a revelar a verdade a ele. Com a ajuda da equipe da DPE de Gurupi, em especial a analista Clívia, contatamos o meu pai, fizemos o teste de DNA e fui reconhecida aos 29 anos.

Faz um ano que ganhei uma nova família: pai, irmãs e uma madrasta maravilhosa. Nunca poderia imaginar que essa história pudesse terminar tão bem! Aliás, terminar não é bem o termo, pois agora é que estamos construindo esses novos capítulos de minha vida junto ao meu pai. Tenho muito o que aprender com ele, e hoje sinto que a lacuna que havia em meu coração foi totalmente preenchida.

Não tinha ideia que a figura paterna pudesse ter um impacto tão grande na vida de um filho, principalmente já na vida adulta depois de tantos anos afastados um do outro, privados da convivência e experiências de pai e filha. Fui criada com muito amor e carinho por meus tios, mas hoje entendo no sentido mais literal, o porquê das ciências da psicanálise e psicologia enfatizarem a importância da paternidade na vida do ser humano. Cresci ouvindo frases como ‘’filho é de mãe’’, pois digo: filho é de mãe, é de pai, é de quem ousa amá-lo e acolhê-lo no coração.

Meu pai e eu estamos muito gratos pela acolhida e apoio que a Instituição nos deu. Vivenciando histórias como essa, em quase todos os dias nos meus quatro anos de Defensoria Pública, nunca ousei imaginar que um dia estaria protagonizando uma dessas histórias. Não foi só um “reconhecimento de paternidade”, foi o reconhecimento de uma história que não poderia ter sido escrita sem a presença do meu pai. Foi o reconhecimento de um pedaço de mim que estava perdido. Hoje sou completa, meu ‘’pedaço’’ foi encontrado e encorajo aqueles que ainda buscam pelas suas histórias, a correrem atrás.

A meus pais; meu perdão e todo o meu amor. E encerro com uma frase de Augusto Cury, psicanalista, escritor e grande defensor da família: “Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida”.

 

* Elis Lorraynne Carvalho
é bacharel em Serviço Social e assistente de Defensoria
na DPE - TO / Diretoria Regional de Paraíso do Tocantins

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