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O poder (inter)pessoal

Dayelly Nascimento, Psicóloga da equipe multidisciplinar, Diretoria Regional de Palmas. - 25/12/2017

Vivemos dias em que qualidades inerentes à essência humana, ao cuidado e solidariedade com o outro, vem sendo constantemente jogadas ao esquecimento, valorizando-se cada vez mais a objetificação ou coisificação das pessoas e, consequentemente, das relações. O sentido de “ser no mundo” buscado pela sociedade contemporânea vem mantendo laços distantes com a valorização do plano pessoal e subjetivo da humanidade e isso tem influenciado de maneira direta as relações intersubjetivas com manifestações negativas em diferentes proporções no ambiente familiar, profissional e social.

Sartre (1973) em suas obras, já afirmava que toda subjetividade é também intersubjetividade e somente nesse encontro, o homem é capaz de se afirmar e de afirmar também o que os outros são. Você já parou para se perguntar como vem utilizando a sua capacidade de influenciar o desenvolvimento das pessoas e ao mesmo tempo, que abertura tem dado para ser influenciado positivamente por aqueles que estão ao seu redor?

Essa me parece ser uma pergunta oportuna para um momento que fomenta tantas reflexões e potencializa, ou ao menos deveria, potencializar em nós sentimentos de solidariedade e renovação das esperanças.

Carl Rogers, psicólogo humanista, define a pessoa como um ser passível de transformação e de superar sua própria condição de ser e de existir no mundo através de uma motivação inerente à sua própria condição humana que é a tendência à realização.

No entanto, esta tendência à realização, apenas opera de maneira positiva, ou seja, direcionada ao crescimento e pleno desenvolvimento das potencialidades da pessoa, se o sujeito estiver em harmonia consigo mesmo e se o ambiente em que ela vive propiciar a ela uma atitude mais congruente.

Ocorre que nos diferentes cenários da vida cotidiana, nos esquecemos de que as relações intersubjetivas são fundamentalmente importantes para o desenvolvimento da subjetividade e o desdobramento de possibilidades para o viver bem e muitas das vezes, lançamos o peso da culpa de nossos fracassos e infelicidade ao outro, mergulhando em ressentimentos e mágoas que nos impedem de sermos influenciados positivamente por relações que poderiam nos auxiliar em nosso processo de desenvolvimento humano.

Se pararmos para analisar um pouco nossas atitudes cotidianas, perceberemos que é bastante comum acreditarmos que a maneira como as pessoas ressignificam suas vidas e descobrem ou constroem novas possibilidades de existir em seus universos particulares diante de alguma adversidade não é problema nosso, já que estamos conscientes de que todos possuem um “livre arbítrio”. Entretanto, o que pouco compreendemos é que este livre arbítrio também nos permite desejar auxiliar o outro em seus processos de existência, embora esse desejo nem sempre signifique que temos poder de decisão sobre a escolhas desse outro.

Vale lembrar, que esta condição da liberdade humana não se trata de obter o que se quer, mas de querer automamente, determinar-se a querer por si mesmo (MOUTINHO, 1995) e sendo assim, todos nós dentre tantas possibilidades do existir humano também podemos escolher os sentimentos e atitudes que desejamos compartilhar no estabelecimento de nossas relações.

Se considerarmos a potência da intersubjetividade, na promoção do nosso bem estar e também do outro, compreenderemos que as relações de pessoa a pessoa configuram um papel de fundamental importância no desdobramento das possibilidades do existir humano, tanto em nível individual quanto em nível coletivo, pois “[...] o viver saudável pode ser associado ao viver bem consigo mesmo e com as demais pessoas, sendo que a qualidade desta relação pode beneficiar o ser humano”. (PATRÍCIO, 1999 apud MOREIRA, 2005, p. 17)

Desse modo, o cuidar que se expressa na relação através da solidariedade com o outro deveria se constituir em um modo de estar com o outro deixando-o ser não conforme se gostaria que fosse mas como realmente ele é no livre existir de suas escolhas. Respeitar a outra pessoa, numa perspectiva bioética e humanista significa querer-lhe bem tanto quanto a si mesmo e compreender-lhe igualmente merecedor do que é bom.

Assim, parece obvio que a qualidade das relações estabelecidas de pessoa a pessoa, possuem potência para facilitar o desenvolvimento criativo de novas condições de existência ou, por outro lado, dificultar o enfrentamento e a aceitação de condições adversas da vida cotidiana e isso ocorre sempre em via dupla. E a pergunta que não quer calar é: como estamos utilizando esse poder (inter)pessoal?

Uma relação de ajuda é concebida como: [...] uma relação na qual pelo menos uma das partes procura promover na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, um melhor funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida. [...] a relação de ajuda pode ser definida como uma situação na qual um dos participantes procura promover numa ou noutra parte, ou em ambas uma maior apreciação, uma maior expressão e uma utilização mais funcional dos recursos internos latentes do indivíduo (ROGERS, 1987, p. 43).

Ora! Se desejo facilitar o desenvolvimento pessoal dos outros em relação comigo, então devo desenvolver-me igualmente, e embora isso seja muitas vezes penoso é também fecundo, pois eu preciso antes de mais nada reconhecer minha potencialidade humana para transformar as condições de existência no meu universo particular e social, assim com esse outro também precisa ter disposição e maturidade para se beneficiar de uma relação de ajuda. Preciso então, dar sentido à minha existência e escolher o caminho de influenciar positivamente ou não àqueles que estão ao meu redor, e essa decisão se expressa a partir da qualidade das relações que estabeleço no dia a dia.

 “[...] a vida não tem sentido a priori; mas de vós depende dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão esse sentido que escolherdes” (SARTRE,1973, p. 27).

A partir do momento em que me reconheço enquanto livre para ser diferente e me aceito em tal condição, preciso na mesma medida compreender também o outro enquanto livre para fazer suas próprias escolhas e para se mostrar tal como é. Desse modo, reconheço o outro enquanto uma pessoa independente e diferente de mim, o que me proporcionará uma maior abertura ao encontro autêntico da relação e o desenvolvimento da capacidade de tolerância e repeito às diferenças.

Assim, se optarmos por estabelecermos relações de ajuda nos ambientes em que estivermos inseridos, seja familiar, profissional ou social, isto significa que iremos experimentar relações imbuídas de mais cuidado e auto-realização.

Se conseguirmos desenvolver uma atitude mais empática e autêntica, a partir de uma postura de respeito e acolhimento que favoreça a compreensão, a confirmação e aceitação do outro em sua singularidade, independente de qualquer mérito ou juízo de valor, estaremos fazendo isso em igual medida a nós mesmos, e assim conseguiremos estabelecer relações de enorme potência para influenciar positivamente os sentimentos e comportamentos dos sujeitos implicados nessa relação.

Acredita-se que ao optarmos por estabelecermos relações de ajuda ou cuidado com as outras pessoas, poderemos atingir um ponto em que o outro reconhecerá que o lugar do julgamento e o centro da responsabilidade residem nele próprio e que, o valor e o sentido da experiência é algo que em última análise, depende dele e não daquilo que desejamos.

Assim, não podemos decidir se o outro se beneficiará ou não da relação que desejamos com ele estabelecer. A única coisa que podemos escolher nessa relação, é se tentaremos lhe fazer o bem ou se somaremos mais dificuldades aos seus desafios individuais, a partir das atitudes que empregamos no estabelecimento de nossa relação com ele. Se nesse encontro pelo bem escolhermos, estaremos conscientes de nosso poder (inter)pessoal, desenvolvendo e ampliando nossas próprias potencialidades e capacidade de auto-realização.

 

Autora: Dayelly Nascimento, Psicóloga da equipe multidisciplinar, Diretoria Regional de Palmas.

 

 

Referências

 

MOUTINHO, Luiz Damon S. Sartre: existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995.

Rogers, Carl. Sobre o poder pessoal. 4ª ed. São Paulo: Martins fontes, 2001.

ROGERS, Carl. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

ROGERS, Carl. R. A pessoa como centro. São Paulo: EPU, 1977.

 

VALLS, Alvaro L.M. Da ética à bioética. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

 

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um Humanismo. In: CIVITA, Victor (editor). Coleção Pensadores: Sartre/ Heidegger. São Paulo, Abril Cultural, 1973.

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