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POR QUE TERMOS UM “DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA”?

Noemia Colonna dos Santos, técnico judiciário do TJDFT, participante do curso Promoção da Igualdade Racial no Judiciário realizado pelo Projeto Justiça Comunitária, edição 2018. - 21/11/2018

No Brasil, o mês de novembro é tradicionalmente dedicado à consciência negra. A data se refere à morte do líder de quilombo Zumbi dos Palmares, ocorrida em 20 de novembro de 1695, símbolo de resistência negra na história do país. Embora criticada por muitos que, em vez, defendem um “Dia da Consciência Humana” já que somos todos humanos e iguais, ainda há muito o que se falar em “Dia da Consciência Negra” em um país onde a humanidade não é ofertada igualmente a todos.

O ator estadunidense Morgan Freeman tem uma polêmica frase dita no contexto de uma entrevista, em que afirma que “para o racismo deixar de existir é só parar de falar nele.” Tal pensamento ganhou adeptos em massa no Brasil, principalmente entre aqueles que se recusam a sentir e perceber a diferença do outro e insistem em interpretar a realidade do mundo a partir de sua particularidade privilegiada.

Enquanto a desigualdade perdurar em nossa sociedade, teremos, sim, que reservar um mês dentre os doze do ano para refletirmos a questão racial no país e os avanços por mais inclusão e igualdade neste campo.  É por causa do mês de novembro que em outros meses ainda conseguimos refletir que a questão do racismo não é  “vitimismo” e podemos apontar as inúmeras desigualdades produzidas por esta opressão.

E porque precisamos de um novembro negro para tocar em ferida ainda tão aberta na sociedade brasileira? Porque não há como concordar com Morgan Freeman sobre silenciarmos quanto à questão racial, a fim de que o racismo acabe magicamente? A resposta a essas questões não se resume a apenas uma, mas podemos nos ater a uma fundamental: porque sustentar o discurso de que somos todos iguais e não deveria haver uma data específica para comemorar a consciência negra pressupõe um perigo. O de acreditarmos que realmente somos todos iguais, quando não somos. Felizmente.

Somos diferentes, porque somos diversos. E não só no tom de pele ou na textura do cabelo; nossa cultura, nossa história, nossa ancestralidade são diferentes daquilo que sempre foi considerado norma de civilidade neste país:  a branquitude e seu legado colonial europeu. Nosso apelo por igualdade deve ser compreendido como uma afirmação de respeito e inclusão de nossas diferenças. Hoje precisamos ter um mês de consciência negra para que elas não sejam mais  usadas como fator de discriminação.

Somos diferentes e isso é maravilhoso. O discurso do “somos todos iguais” também é perigoso porque camufla o desejo de se apagar as diferenças em nome de um ideal hegemônico. “Somos todos iguais”, desde que sejamos todos brancos; “não tolero esse seu cabelo afro”. “Somos todos iguais”, desde que sejamos todos cristãos; “a sua religião é do demônio; “Somos todos iguais”, desde que as subjetividades sejam masculinas; “não gosto de ter uma mulher como chefe“; Somos todos iguais”, desde que sejamos todos héteros.; “olha que pouca vergonha esses dois se beijando em público”.  Uma pretensa igualdade que vai silenciosamente elimando o diferente.

O poeta inglês do século 18, William Cowper, já dizia que “a variedade é o tempero da vida e o que dá a ela seu mais verdadeiro sabor”.  Eu reafirmo: nossas diferenças e diversidade é o que dá vida e sabor à democracia. É o coentro, a salsinha, o sal, a pimenta, o curry que dá o toque fundamental a um prato extremamente saboroso. Prove uma comida com o mesmo sabor todos os dias e verá o quão insossa a experiência será. Assim são as culturas, as pessoas, as etnias, as  ideias, as religiões: o tempero que dá o grande toque especial à nossa democracia.

A frase equivocada de Freeman e repetida por muitos, de que “para acabar com  o racismo é só não falar sobre ele “, parte sempre de uma realidade particular, e nunca coletiva. Morgan Freeman, por exemplo, embora negro, é um ator famoso e privilegiado pela classe. Ele não pode falar pelo indivíduo negro anônimo que é sempre reconhecido pela polícia como o bandido da vez, pois tem a pele e o jeito de um; Ele também não é a mulher negra vista apenas para ser serviçal doméstica ou “mulata globeleza”, e que deseja, acima de tudo, ser  ela mesma; Tampouco Freeman é o negro rico ou pobre comuns, que pela cor da pele são julgados antes de serem conhecidos. 

Aqueles que pedem o silêncio ao debate da questão racial, o fazem exatamente por não perceber que o racismo não os afeta. Ledo engano. O racismo atinge a todos, negros e não negros, atores de Hollywood e de qualquer outro lugar. Porque racismo não é apenas xingar alguém de macaco (e assim retirar a humanidade da pessoa) ou “preto preguiçoso”. Mais do que isso, racismo é um sistema estrutural de opressão, que favorece quem o pratica e empobrece quem o sofre.

Nossa luta deve ser pela coletividade e contra o racismo invisível, institucional e estrutural  que mina o país e destrói vidas negras. Enquanto ainda existir gente achando normal uma morte negra ou anormal e espantoso um negro em um lugar de destaque na sociedade como juízes, médicos, professores, isso é um claro sinal de que ainda temos, sim, que conversar sobre o racismo. E não apenas no mês de novembro.

 

Noemia Colonna dos Santos, técnico judiciário do TJDFT, participante do curso Promoção da Igualdade Racial no Judiciário realizado pelo Projeto Justiça Comunitária, edição 2018.

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