O curador de cobra

Não  atrevo-me a pegar na cobra, nem que seja por conselho de curador de cobra.

Já ouviu falar desta qualidade especial humana ?

Pois bem.

Existem pessoas que possuem o dom de curadoria e um dia normal no Mês de maio, passado os dias das mães tive a sorte de ouvir uma boa estória  no interior do Tocantins, com direito a presenciar uma mini jararaca que também queria participar da estória.

Existia um homem que fechava arca caída, tirava olhado de  menino novo e ainda por cima curava mordida de cobra. Tinha a missão de ser uma espécie de enfermeiro do mato para causas impossíveis e salvador das infortunadas  vítimas que pisavam onde não deviam e precisavam de socorro imediato do além.

Ele se chamava Luís e antes do hospital a sua casa era o local mais charmoso da roça, pois ali se ressuscitaria os quase mortos e por ter corpo fechado era o famoso CURADOR DE COBRA, o curador.

O curador é um ser abençoado e do nosso mundo, nada de assombração. Muitos existem e estão perdidos nos rincãos do Brasil e receberam de Deus a benção de escapar de veneno de cobra e curar o veneno dos irmãos com rezas abençoadas. Ele fala que imperioso ter fé para a rezaria ter efeito, que  a tribufu recolhe o veneno no ar e se  você sentir uma leve dor de cabeça quando atravessa uma estradinha de roça é porque a peçonhenta lhe avistou e repassou uma energia que somente a cobra tem e você não sabe.

Melhor ter dor de cabeça do que levar picada, não é mesmo?

Na internet há a menção de que o curador de cobra fica com o olho ardendo em plena lua cheia e que se ele fizer uma visita na sua casa tem o dom de saber quem tem o corpo fechado.

Luís  era amigo do meu anfitrião, um senhor do interior do Tocantins, seu Alberto, que tinha o corpo fechado e também foi abordado por um feiticeiro, macumbeiro de Codó enraivecido por quê Alberto não pega feitiço.

Imagine um causo destes. Não é um como vai, ou você está bem. Ele simplesmente queria trocar satisfação porque o feitiço não pegava, como se feitiço fosse vicio do código de defesa do consumidor.

Ele disse que era curado de cobra, e nenhuma cobra conseguia lhe matar,  mas eu com meus neurônios penso que ele  deveria ter dito que feitiço  besta exercido  por macumbeiro incompetente não causa arrepio em  quem é protegido por Deus e nossa Senhora.

Alguém deve ter tomado satisfação com este macumbeiro e agora ele está com má fama no terreiro, pois esta pindaíba não é compatível com querela na justiça.

A mini jararaca que estava ali ouvindo a estória ficou afoita e quis olhar de perto o curador.

Afinal era um homem anormal, não porque tivesse algo de diferente no corpo, talvez na alma e queria enxergar a áurea dele.

A jararaquinha, coisinha linda de peçonhenta,  ouviu dizer lá no buraco das cobras que seres de luz violeta são intocáveis e nunca tinha visto um daqueles. Ela estava escondida num engradado de refrigerante, mas deu azar porque iam fazer uma festa e as garrafas teriam que ficar num isopor. Neste tira e põe de guaraná  saiu do engradado e surrupiou a cena quando  correu no meio do terraço, como se fosse a atriz principal de telenovela.

Era minúscula e parecia uma minhoca, mas era uma cobra e muitíssimo venenosa, tinha QI elevado e  estava ali para adquirir conhecimentos, mas  levou  foi mesmo uma boa  chinelada de chinela havaiana. Bisbilhoteira, desgraçada! Uma criancinha abençoada percebeu a ironia do destino e alertou os adultos.

- Olha a cobra, olha a cobra!

Para ser franca, é melhor correr da cobra, mas neste olha não olha, corre não corre, você tem que saber onde põe seu pé. E assim olharam bem e a melhor alternativa para aquele momento era uma boa chinelada.

O Curador anfitrião,enfocou: 

- Esta daí nem mesmo curador escapa, miúda e novinha o veneno é intacto. Já a grande que assusta meio mundo de gente o veneno é menor e não mata curador, pois o veneno se perde com o passar do tempo. Velha cobra, veneno que se vai, como se o vigor da cobra fosse o seu veneno.

Exemplificou que um curador antigo, o Luís, que gostava de brincar de ser mordido, caiu duro no chão quando uma pequenina lhe mordeu no rosto, também... ele exagerou, tudo tem limite na vida.

Situação interessante, pois não tem santo algum de cidade que acredite que aquela coisa pequena e peçonhenta que só assusta porque é uma cobra poderia matar alguém e digo que ali diante da sistemática daquele dia cotidiano não seria nada  impossível. Foi por muito pouco! Não era o  dia da cobra, era o dia do homem, e assim surge um pá, pá, pá. Acabou-se!

Esta temática é interessante porque no campo é comum esta relação nada agradável e as cobras além de assustarem as crias, também costumam dormir na casa para fugir da friagem   e observei que o curador foi enfático em alertar que  não pode matar a cobra, porque se fizer  perde a benção.

Graças a Deus que o curador não matou a cobra. Destaco que  o senhor da casa, homem de corpo fechado e propenso curador de cobra, não foi uma testemunha ocular, pois não viu este ilícito contra a natureza.

Teve a sorte de por um instante de minutinhos  ser convidado para um breve lanche no interior da residência e a cobrinha foi assassinada no terraço. Retratos de um domingo abençoado interrompido por uma cena de arrepiar cabelos. A cobra, a mini jararaca foi velada num saco de lixo plástico transparente. Ela não tinha Covid, mas foi posta num saco igual ser humano  e depois foi  direto ao lixo, enquanto nós voltamos para a terra. Tive pena da bichinha, somente queria reconhecer de perto um curador, mas não soube se camuflar, era muito novinha, não tinha aprendido as artimanhas do destino.

Acredito que seres   elementais protegem os matos, as casas das roças  e os seres humanos de bom coração além de terem  os curadores de cobra como saudosos amigos . Alguns curadores oram para que as cobras saiam de perto do curral, do pasto e da casa e já ouvi dizer que depois disso as meninas compridas saem obedecendo a uma oração mística. Contudo,  eles doutrinam que elas devem sair dos buracos e rodopiarem com paz,  nada de morte, senão a oração não pega! A morte é um tabu e também existe ética no meio do mato, pois as cobras e curadores de cobra respeitam a vida na natureza.

Sai dali com a alma livre, o curador curou meu medo da cobra.

Descobri a existência de ética na natureza, que há os defensores das cobras e recebem a permissão de salvar-nos da morte.

 

 

Juíza de Direito Luciana Aglantzakis; Membro da Academia Palmense de Letras (APL) - 17/05/2021

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